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Cultura de Segurança5 min de leitura

A Ilusão da Escova de Ouro

Em muitos momentos da minha trajetória, observei um padrão recorrente, apresentar uma nova ferramenta, propor um novo processo, compartilhar uma prática testada e validada apenas para assistir a uma enxurrada de críticas. As pessoas apontavam o que estava "…

Andreza Araújo

Por que insistimos em buscar ferramentas perfeitas e esquecemos de comunicar o propósito?

Em muitos momentos da minha trajetória, observei um padrão recorrente, apresentar uma nova ferramenta, propor um novo processo, compartilhar uma prática testada e validada apenas para assistir a uma enxurrada de críticas. As pessoas apontavam o que estava "errado", o que "poderia ser melhor", o que "na empresa anterior era diferente".

O problema não estava na crítica em si. O verdadeiro problema era onde a energia organizacional estava sendo colocada que era na desconstrução da ferramenta e não na construção do propósito.

Esse é o ponto de partida desta reflexão.

A armadilha da crítica sem causa

Existe uma diferença fundamental entre contribuir com melhorias e desgastar uma iniciativa com críticas superficiais. Nas organizações onde trabalho, observo frequentemente pessoas que julgam a ferramenta antes mesmo de se abrirem para compreender por que dela existe.

É como se a perfeição estética ou a familiaridade funcional fossem mais importantes do que o impacto real daquela ferramenta mas elas não são. Quando alguém coloca mais energia em desqualificar a forma do que em entender o propósito, perde-se aquilo que realmente importa.

Ferramentas são meios, nunca fins. O que torna uma ferramenta verdadeiramente valiosa não é se ela veio em Excel, PowerPoint ou em um formulário digital. O que realmente importa é se ela comunica o propósito com clareza, se gera aprendizado genuíno e se mobiliza comportamentos alinhados com o objetivo que se busca. Essas perguntas quase nunca são feitas por quem busca apenas defeitos.

Pesquisas sobre eficácia de comunicação em mudanças organizacionais revelam algo importante:

  • a principal causa de falha em processos de implantação não está na ferramenta, mas sim na falta de clareza sobre o propósito e na comunicação ineficaz com os usuários finais.

Não é, portanto, o formato da escova, mas a falta de sentido que ela carrega.

O poder da legitimidade organizacional

Quem avança não é quem encontra a ferramenta perfeita. É quem entende que, mesmo com imperfeições, o propósito é forte o suficiente para sustentar o ciclo de melhoria contínua.

Ferramentas ganham força quando se tornam legítimas dentro da cultura da empresa. O que a pesquisa em gestão organizacional chama de legitimidade intra-organizacional é aquele momento em que as pessoas passam a ver valor, relevância e alinhamento entre o que é proposto e o que acreditam como coletivo. Sem isso, a ferramenta é rejeitada, mesmo que tecnicamente perfeita.

O perigo do copiar e colar

Outro fator que alimenta a ilusão da escova de ouro é a replicação de experiências de outras organizações sem o devido cuidado de entender o contexto. Ferramentas que funcionaram muito bem em uma empresa são adotadas em outra como se fossem receitas universais.

Mas segurança, liderança e cultura não funcionam por receita. Funcionam por contexto bem avaliado. A escova de ouro, nesse caso, vira um símbolo de referência sem raiz, brilhando porque deu certo em outro lugar, mas aqui, pode não fazer sentido algum. E o mais perigoso é que ao importar ferramentas sem reflexão, corremos o risco de impor uma solução que desmobiliza ao invés de engajar.

A Teoria da Difusão de Inovações, de Everett Rogers, demonstra que para uma ferramenta ser realmente adotada, ela precisa ser compatível com o contexto, ser simples de usar, ser testável, ser visível e oferecer benefícios claros. Quando fazemos uma cópia sem avaliar essas variáveis, perdemos todos esses atributos e criamos mais resistência do que transformação.

O que sustenta a transformação

O que sustenta a transformação é o propósito, nunca a embalagem. Toda ferramenta precisa girar seu próprio ciclo de melhoria contínua. Precisa ser adaptada, testada, melhorada. Isso só acontece quando existe compromisso genuíno com o propósito e não apenas com a embalagem da solução.

A verdade que aprendi observando centenas de implementações é simples, mas poderosa. Já vi ferramentas incríveis fracassarem porque foram mal comunicadas. E já vi soluções simples ganharem força extraordinária porque havia uma conexão profunda com o propósito.

Antes de buscar a escova de ouro

Faça-se estas perguntas antes de criticar ou adotar uma nova ferramenta:

  1. Estou gastando mais energia criticando do que ajudando a construir algo melhor?
  2. Estou buscando a ferramenta perfeita ou estou buscando a conexão com um propósito que vale a pena?
  3. Essa ferramenta é adequada ao meu contexto específico ou apenas uma cópia de algo que brilhou em outro lugar?

A verdadeira excelência não está na escova dourada. Está em entender profundamente o porquê das coisas, em respeitar genuinamente o contexto em que se opera e em ter a humildade necessária para fazer a ferramenta funcionar antes de tentar reinventá-la.

Ferramentas salvam vidas e transformam organizações, desde que o seu propósito esteja bem comunicado.

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