Indicadores e Métricas

Taxa de acidentes: como a PepsiCo LatAm reduziu 86%

Case mostra como a queda de 86% na taxa de acidentes dependeu de indicadores leading, rotina de supervisão e decisão executiva no campo industrial.

Por 8 min de leitura
painel de métricas representando taxa de acidentes como a pepsico latam reduziu 86 — Taxa de acidentes: como a PepsiCo LatAm

Principais conclusões

  1. 01Diagnostique se a taxa de acidentes está sendo usada como placar mensal ou como gatilho real para decisão executiva e intervenção no campo.
  2. 02Conecte TRIR, LTIFR e taxa de frequência a indicadores leading, porque a consequência só muda quando exposição, barreira e supervisão entram na conversa.
  3. 03Audite os próximos 30 dias com foco nas 10 tarefas de maior potencial fatal, cruzando relatos, inspeções, ações vencidas e recusas de tarefa.
  4. 04Proteja o reporte quando a taxa piorar temporariamente, já que aumento de quase-acidentes pode revelar melhora de captura, não deterioração cultural.
  5. 05Contrate um diagnóstico de cultura de segurança quando seu painel tem muitos números, mas poucas decisões rastreáveis antes dos eventos graves.

A redução de 86% na taxa de acidentes por horas trabalhadas durante a atuação de Andreza Araujo na PepsiCo LatAm não nasceu de um painel mais bonito. Nasceu quando a liderança deixou de tratar indicador como retrospectiva mensal e passou a usar cada número como gatilho de decisão no campo. 86% de queda só aparece quando a métrica muda a conversa antes do evento grave, não depois dele. Esse case importa porque muitas empresas ainda discutem TRIR, LTIFR e taxa de frequência como se o número, sozinho, explicasse a maturidade da operação.

O recorte deste estudo não é uma homenagem ao resultado. O ponto técnico é entender por que a taxa caiu. A hipótese mais comum diria que campanhas, treinamentos e metas agressivas explicam a curva. A experiência de Andreza mostra outra coisa: a virada aconteceu quando o indicador passou a expor comportamento de liderança, qualidade da supervisão e fragilidade de barreiras críticas, cuja ausência raramente aparece em relatórios mensais tradicionais.

Cenário inicial

A PepsiCo LatAm operava em ambiente industrial distribuído, com fábricas, centros logísticos, rotinas comerciais e pressão de entrega em vários países. Esse tipo de operação costuma produzir um paradoxo conhecido em SST. O painel corporativo recebe números padronizados, ao passo que cada unidade vive uma combinação diferente de turno, manutenção, terceirização, clima, maturidade de supervisão e perfil de liderança local.

Quando Andreza Araujo assumiu a agenda regional de HSE, a taxa de acidentes por horas trabalhadas era o indicador que melhor traduzia o problema para a liderança. Ainda assim, a taxa era apenas o sintoma. O dado mostrava que pessoas se machucavam, mas não explicava se a causa estava em barreiras críticas ausentes, em permissões de trabalho frágeis, em supervisão distante ou em metas que empurravam decisões arriscadas para o turno.

O Anuário Estatístico de Acidentes do Trabalho do Ministério do Trabalho costuma reforçar essa limitação: estatísticas oficiais registram consequência, setor, natureza da lesão e afastamento, mas não revelam com precisão a qualidade da decisão que antecedeu o evento. James Reason já havia descrito esse ponto ao diferenciar falhas ativas e falhas latentes. O acidente aparece na ponta, embora a organização tenha preparado o terreno muito antes.

Decisão

A decisão central foi tirar a taxa de acidentes do papel de placar e transformá-la em pergunta operacional. Em vez de perguntar apenas se a unidade melhorou ou piorou no mês, a liderança passou a discutir quais sinais anteriores explicavam o movimento da taxa. Esse deslocamento parece pequeno, mas muda a governança de SST porque força o comitê a olhar para o que ainda pode ser corrigido.

Em Muito Além do Zero, Andreza Araujo critica a obsessão por metas de ausência de acidente quando elas estimulam silêncio operacional. O case da PepsiCo LatAm seguiu a direção oposta. A redução de 86% não dependia de premiar unidade sem ocorrência, e sim de aumentar a qualidade dos relatos, das visitas de campo e das decisões sobre barreiras antes que a taxa final melhorasse.

A escolha prática foi aproximar indicadores de resultado e indicadores leading. Taxa de frequência, taxa de gravidade e LTIFR continuaram relevantes, mas perderam o monopólio da conversa. A liderança passou a acompanhar exposição crítica, qualidade de inspeções, fechamento de ações, repetição de desvios, presença do supervisor no campo e eventos com potencial SIF. Esse desenho conversa diretamente com o que já discutimos em indicador de exposição, barreira e decisão no comitê executivo.

Execução

A execução exigiu disciplina de rotina. Um painel só muda comportamento quando alguém decide algo a partir dele, e essa decisão precisa voltar ao turno em forma de prioridade, recurso, presença ou interrupção planejada. Sem esse ciclo, o painel vira arquivo de apresentação.

O primeiro movimento foi separar número de aparência e número de decisão. Uma taxa baixa podia esconder subnotificação, enquanto uma alta temporária podia revelar melhora na captura de eventos. Essa distinção impediu que a operação punisse a unidade que começava a reportar melhor. Também reduziu a tentação de transformar taxa verde em permissão para relaxar barreiras.

O segundo movimento foi criar uma cadência curta entre campo e direção. Visitas executivas, reuniões de supervisão e análise de desvios passaram a conversar com o mesmo mapa de riscos. Quando uma unidade reportava aumento de quase-acidentes em rota de empilhadeiras, por exemplo, a pergunta não era quem errou no turno. A pergunta era qual barreira física, organizacional ou comportamental havia perdido força.

O terceiro movimento foi tratar o supervisor como tradutor da métrica. A liderança corporativa podia definir a leitura regional, mas era o supervisor que convertia o achado em conversa pré-tarefa, recusa de serviço inseguro, correção de rota e reforço de padrão. Esse elo explica por que a queda de acidentes não é apenas resultado de estratégia. Ela depende da qualidade do último metro de execução.

Resultado mensurado

O resultado emblemático foi a redução de 86% na taxa de acidentes por horas trabalhadas durante a atuação de Andreza Araujo na PepsiCo LatAm. O número é relevante porque combina escala regional, diversidade operacional e pressão produtiva, três fatores que costumam enfraquecer programas de SST quando a organização depende apenas de campanhas.

A queda não deve ser lida como promessa universal de replicação. Um resultado de 86% em uma multinacional de alimentos não significa que toda empresa obterá a mesma curva em 12, 18 ou 24 meses. O que pode ser replicado é o mecanismo: aproximar dado, decisão e campo até que a taxa deixe de ser uma fotografia tardia e passe a indicar onde a liderança precisa intervir.

3 camadas sustentaram o resultado: métrica de consequência, sinal precursor e ação de liderança rastreável. Sem as três, a organização tende a escolher um extremo ruim. Ou fica presa à taxa de frequência, que olha demais para trás, ou cria dezenas de indicadores leading que ninguém usa para decidir.

DimensãoAntesDepois
Leitura da taxaPlacar mensal de acidentesGatilho para investigação de exposição e barreiras
Indicadores leadingDispersos entre áreas e pouco comparáveisConectados a visitas, desvios, ações e potencial SIF
Discussão executivaFoco em unidade vermelha no mêsFoco em decisão que reduz risco antes do evento
SupervisãoCobrança por cumprimento de rotinaUso da métrica para conversa de campo e recusa segura
Resultado citadoTaxa de acidentes ainda pressionadaRedução de 86% por horas trabalhadas

Lições generalizáveis

A primeira lição é que a taxa de acidentes precisa perder o status de verdade única. TRIR, LTIFR e taxa de frequência ajudam a comparar histórico, mas não substituem leitura de risco vivo. O artigo sobre taxa de frequência, taxa de gravidade e indicador sentinela aprofunda essa escolha porque cada métrica responde a uma pergunta diferente.

A segunda lição é que indicador leading só presta quando tem dono e consequência operacional. Contar inspeções feitas não basta, já que a qualidade da inspeção depende do que foi observado, do que foi recusado e do que mudou depois. Quando uma inspeção encontra sempre tudo em ordem, a liderança precisa suspeitar da inspeção, não celebrar o formulário.

A terceira lição é que redução grande raramente vem de uma intervenção única. A curva de 86% sugere acúmulo disciplinado de decisões pequenas: pauta executiva recorrente, supervisor presente, barreira crítica visível, relato protegido, fechamento de ação e aprendizagem com quase-acidente. Frank Bird e Herbert Heinrich popularizaram a ideia de eventos precursores em pirâmides de acidentes; a utilidade prática está em transformar esse raciocínio em rotina de decisão, não em desenho de apresentação.

A quarta lição é que o painel precisa mostrar o que a operação prefere esconder. Exposição crítica sem acidente, ação vencida em risco alto e unidade com taxa perfeita por tempo demais são sinais desconfortáveis. O artigo sobre exposição crítica sem acidente detalha essa lacuna, porque muitos painéis só enxergam lesão quando a barreira já falhou.

O que aplicar na sua operação

Uma empresa que queira aprender com esse case deve começar por uma auditoria simples de 30 dias. Escolha as 10 tarefas com maior potencial de fatalidade, cruze a taxa de eventos com relatos, inspeções, ações vencidas e recusas de tarefa, e leve ao comitê apenas as decisões que exigem recurso ou autoridade. O restante pertence à gestão de rotina.

Depois, defina um indicador sentinela por risco crítico. Em movimentação de materiais, pode ser quase-colisão entre pedestre e empilhadeira. Em altura, pode ser PT recusada por ausência de plano de resgate. Em eletricidade, pode ser bloqueio refeito após auditoria. O conceito de indicador sentinela em SST ajuda porque antecipa decisão antes da lesão.

O terceiro passo é revisar a reunião mensal. Se 80% do tempo é gasto explicando o que aconteceu, a reunião está atrasada. O comitê deve reservar pelo menos metade da pauta para o que será feito nos próximos 30 dias, por quem, com qual recurso e qual sinal mostrará que a barreira melhorou.

A última aplicação é cultural. Andreza Araujo mostra em Cultura de Segurança que maturidade não se mede pela frase que a liderança repete, mas pela decisão que ela sustenta quando produção e proteção entram em conflito. Um painel de SST só tem valor quando ajuda a liderança a tomar essa decisão antes que alguém se machuque.

Conclusão

A PepsiCo LatAm reduziu 86% da taxa de acidentes porque a métrica deixou de ser um número de fechamento e passou a orientar escolhas de liderança. Esse é o ponto que o mercado costuma minimizar. Não falta indicador nas empresas; falta uma cadência que obrigue o indicador a mudar orçamento, presença, prioridade e conversa de campo.

Para organizações que já têm painel, mas continuam discutindo acidentes depois que eles acontecem, o próximo passo é auditar se a governança sustenta a decisão. O artigo sobre governança de SST para sustentar redução de 86% aprofunda essa sustentação. A consultoria de Andreza Araujo pode apoiar esse diagnóstico quando a empresa precisa separar métrica decorativa de métrica que protege vidas.

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Perguntas frequentes

Como a PepsiCo LatAm reduziu 86% da taxa de acidentes?
A redução de 86% ocorreu durante a atuação de Andreza Araujo na PepsiCo LatAm e se apoiou em uma mudança de governança: a taxa deixou de ser apenas placar mensal e passou a orientar decisões de liderança. O ponto replicável não é prometer o mesmo percentual, mas conectar taxa de frequência, LTIFR, indicadores leading, supervisão de campo e ação sobre barreiras críticas.
Qual indicador deve acompanhar a taxa de acidentes?
A taxa de acidentes precisa ser acompanhada por indicadores leading ligados a exposição e barreiras. Exemplos incluem qualidade das inspeções, ações vencidas em risco alto, quase-acidentes com potencial SIF, recusas de tarefa e presença da liderança no campo. Sem esses sinais, TRIR e LTIFR mostram apenas o que já aconteceu.
Reduzir taxa de acidentes significa melhorar cultura de segurança?
Nem sempre. Uma taxa menor pode indicar melhoria real, mas também pode esconder subnotificação, medo de reportar ou pressão por meta zero. Andreza Araujo discute esse risco em Muito Além do Zero, ao diferenciar ausência registrada de acidente e capacidade efetiva da organização para aprender com sinais fracos.
Qual a diferença entre indicador lagging e indicador leading?
Indicador lagging mede consequência, como acidente registrado, dias perdidos, TRIR ou LTIFR. Indicador leading mede sinais anteriores ao dano, como exposição crítica, barreira vencida, inspeção de campo e quase-acidente. Essa diferença é aprofundada no artigo sobre indicador de exposição, barreira e decisão.
Como levar taxa de acidentes ao comitê executivo?
Leve a taxa junto com a decisão que ela exige. O comitê não precisa apenas saber se o mês piorou; precisa decidir sobre recursos, prioridades, barreiras e presença executiva no campo. Para estruturar essa pauta, veja também taxa de frequência, gravidade e indicador sentinela.

Sobre a autora

Andreza Araújo

Especialista em Cultura de Segurança · Executiva Sênior de EHS

Andreza Araújo é especialista em cultura de segurança e executiva sênior de EHS, com mais de 25 anos de experiência em meio ambiente, saúde e segurança. É engenheira civil e engenheira de segurança do trabalho pela Unicamp, mestra em Diplomacia Ambiental pela Universidade de Genebra e concluiu estudos em sustentabilidade no IMD, na Suíça. Atuou como Global Head de EHS em ambientes Fortune 500, liderando programas de transformação cultural em operações multinacionais. Representou o Brasil como palestrante na ONU, em Paris, e discursou na Organização Internacional do Trabalho, em Turim. É autora de mais de 16 livros sobre cultura de segurança em português, espanhol, inglês e alemão. Seu trabalho já recebeu mais de 10 prêmios de EHS, incluindo dois reconhecimentos de Indra Nooyi, ex-CEO da PepsiCo.

  • Engenheira Civil e de Segurança (Unicamp)
  • Mestra em Diplomacia Ambiental (Universidade de Genebra)
  • Certificação em Sustentabilidade (IMD Suíça)
  • Gestão de Pessoas e Coaching (Ohio University)
  • Palestrante na ONU em Paris, representando o Brasil
  • Palestrante na OIT em Turim
  • LinkedIn Top Voice
  • Reconhecimento de Indra Nooyi, ex-CEO da PepsiCo (2x)

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