Governança de SST: 86% menos acidentes na PepsiCo LatAm
Estudo de caso mostra como governança de SST transformou decisão executiva, barreiras críticas e cultura de campo na PepsiCo LatAm.

Principais conclusões
- 01Diagnostique governança de SST pelo modo como decisões críticas chegam ao comitê antes que a exposição vire acidente.
- 02Conecte taxa de acidentes a barreiras, exposição e decisões executivas, porque indicador tardio sozinho só explica o passado.
- 03Proteja a voz operacional para que quase-acidentes de alto potencial apareçam como evidência preventiva, não como constrangimento local.
- 04Audite visitas de liderança por decisões tomadas em campo, já que presença sem pergunta técnica vira ritual de baixa efetividade.
- 05Contrate um diagnóstico de cultura de segurança quando seu painel melhora, mas alertas críticos não recebem dono, prazo e fechamento verificável.
Governança de SST costuma ser confundida com reunião mensal, painel colorido e assinatura de plano de ação. O caso da PepsiCo LatAm mostra outra coisa: governança só muda acidente quando transforma decisão executiva em rotina de campo, com dono, cadência, indicador e consequência operacional. Durante a passagem de Andreza Araujo pela PepsiCo na América Latina, a taxa de acidentes por horas trabalhadas caiu 86%, dado verificável do histórico profissional dela e ponto de partida para entender o que separa gestão simbólica de cultura viva.
O recorte deste estudo de caso não é repetir que a taxa caiu. Esse ponto já foi aprofundado no artigo sobre taxa de acidentes na PepsiCo LatAm. A pergunta aqui é mais difícil: que tipo de governança permite que a redução não dependa de uma campanha isolada, de um líder carismático ou de um mês estatisticamente favorável? Em 25+ anos de EHS executivo, Andreza Araujo aprendeu que o número melhora de modo consistente quando a organização para de tratar SST como agenda do departamento técnico e passa a tratar risco como decisão de gestão.
Cenário inicial
Em uma operação regional, a primeira dificuldade raramente é falta de regra. O problema aparece na distância entre centros corporativos, fábricas, armazéns, terceiros, rotas logísticas e lideranças locais, cada qual interpretando segurança com pesos diferentes. O mesmo procedimento pode estar formalmente implantado em todos os países e, ainda assim, produzir práticas incompatíveis no turno, porque cada gestor decide o que tolera quando prazo, custo e exposição se chocam.
Esse cenário cria uma armadilha comum em multinacionais: o indicador consolidado parece gerenciável, mas a cultura real está fragmentada. Uma unidade melhora porque tem liderança forte. Outra mantém resultado estável por sorte, baixa exposição temporária ou subnotificação. Uma terceira cumpre auditoria e convive com desvios críticos normalizados. Como Andreza Araujo discute em A Ilusão da Conformidade, conformidade legal pode ser piso necessário sem virar capacidade operacional.
O diagnóstico cultural precisa olhar para evidências que o painel tradicional não captura. Quem interrompe uma tarefa quando uma barreira falha? Qual gerente aceita atrasar entrega para corrigir condição crítica? Quantos quase-acidentes de alto potencial chegam ao comitê antes do evento grave? O artigo sobre cultura de segurança em 250 projetos mostra que esse deslocamento, do dado agregado para o campo, é o que impede a empresa de administrar apenas médias.
Decisão
A decisão central foi tratar a taxa de acidentes como consequência, não como projeto. Quando a meta fica presa ao número final, a organização tende a discutir se a curva subiu ou desceu, mas investiga pouco quais decisões criaram a curva. A governança mais robusta inverte a lógica: define quais comportamentos de liderança, barreiras críticas e rituais de campo precisam existir toda semana para que o resultado apareça depois.
Essa decisão muda o papel do executivo. Ele deixa de pedir segurança em discursos e passa a perguntar por exposições, barreiras e decisões atrasadas. Também muda o papel do gerente local, que deixa de apresentar somente taxa e passa a explicar onde a operação está vulnerável. Em Muito Além do Zero, Andreza Araujo critica justamente a obsessão por ausência de acidente, porque o zero pode proteger o número enquanto o risco segue vivo.
A escolha prática foi criar uma cadência em que liderança, indicador e ação de campo se encontrassem. Isso não exige multiplicar reuniões. Exige que a reunião certa tenha perguntas melhores, evidência verificável e autoridade para remover obstáculos. O comitê que apenas recebe apresentação de SST consome tempo. O comitê que decide sobre barreiras, recursos e consequência cultural muda o sistema.
Execução
A execução começou pela tradução do objetivo em responsabilidades observáveis. Em vez de pedir compromisso genérico, a governança precisa definir quem é dono de cada barreira crítica, qual indicador mostra degradação e qual decisão deve subir de nível quando a operação não consegue resolver sozinha. Esse desenho reduz ambiguidade, porque o gerente deixa de perguntar se segurança é importante e passa a saber qual decisão precisa tomar até a próxima reunião.
O segundo movimento foi deslocar a conversa para indicadores que antecedem o acidente. Taxa de frequência e taxa de gravidade continuam úteis, mas chegam tarde. Para sustentar mudança cultural, a liderança precisa olhar fechamento de ações críticas, qualidade de observações de campo, recorrência de desvios, tempo de resposta a quase-acidente de alto potencial e integridade das barreiras. O artigo sobre indicador de exposição, barreira e decisão aprofunda essa escolha para comitês executivos.
O terceiro movimento foi reforçar a presença da liderança no trabalho real. Não como visita protocolar, mas como verificação de contexto. Um diretor que pisa no campo apenas para elogiar banner perde a chance de enxergar o risco. Um diretor que pergunta qual tarefa foi interrompida, qual barreira falhou e qual decisão depende dele começa a alterar o padrão de conversa. Essa presença tem efeito cultural porque sinaliza o que a organização valoriza quando ninguém está tentando impressionar auditor.
A execução também exigiu proteger a voz operacional. Se quase-acidente vira constrangimento, ele desaparece. Se a parada de tarefa vira sinal de incompetência, ela deixa de acontecer. Governança cultural madura mede a qualidade da resposta ao alerta, não apenas a quantidade de alertas. Essa lógica conversa com James Reason, especialmente na leitura de falhas latentes: o evento grave raramente nasce no ato final; ele amadurece em decisões aceitas ao longo do tempo.
Resultado mensurado
O resultado emblemático foi a redução de 86% na taxa de acidentes por horas trabalhadas durante a atuação de Andreza Araujo na PepsiCo LatAm. O dado importa porque mostra escala regional, mas a leitura técnica não deveria parar no percentual. Uma queda desse tamanho só é culturalmente relevante quando acompanha mudança no modo como líderes decidem, supervisores intervêm e equipes reportam exposições antes do dano.
O risco de usar o caso como propaganda é imaginar que existe uma fórmula transferível em 3 passos. Não existe. O que existe é um princípio transferível: indicador atrasado precisa ser cercado por decisões antecipatórias. Se uma empresa reduz taxa enquanto reduz relatos, posterga manutenção, evita registrar lesões ou pressiona retorno prematuro, ela não melhorou a segurança. Ela melhorou a aparência do painel.
Por isso, a interpretação correta do caso combina resultado e mecanismo. O percentual de 86% é a evidência externa. A governança que sustenta a mudança aparece em cadências, perguntas, donos de barreira e consequências reais. Para transformar esse tipo de resultado em maturidade, a empresa precisa medir não apenas quantos acidentes ocorreram, mas quantas decisões críticas foram tomadas antes que o acidente tivesse chance de ocorrer.
Lições generalizáveis
A primeira lição é que cultura não escala por slogan. Ela escala por sistema de decisão. Quando uma região com múltiplas unidades quer mudar o padrão de SST, precisa reduzir variação injustificada entre lideranças locais. Isso não significa apagar contexto; significa definir mínimos inegociáveis para risco crítico, resposta a desvios e prestação de contas.
A segunda lição é que o indicador certo muda a conversa. Se o comitê só vê taxa, todos esperam o mês fechar para reagir. Se o comitê vê barreiras degradadas, exposição crítica e ações vencidas, a decisão chega antes. O artigo sobre indicador de barreira crítica detalha esse desenho, especialmente para operações que já cansaram de explicar acidentes depois do fato.
A terceira lição é que liderança local decide a cultura real. Política corporativa cria direção, mas o supervisor e o gerente de área definem o que acontece quando a produção aperta. Andreza Araujo afirma em Cultura de Segurança que cultura se cultiva com presença e constância. Essa frase parece simples, embora fique exigente no cotidiano, porque presença sem pergunta técnica vira cerimônia e constância sem consequência vira rotina vazia.
A quarta lição é que governança precisa tolerar notícia ruim. Em cultura imatura, o gestor que traz exposição crítica parece estar criando problema. Em cultura madura, ele está antecipando perda. Essa mudança exige maturidade executiva, porque a informação mais útil para prevenir acidente costuma chegar desconfortável, incompleta e fora do ciclo bonito da apresentação mensal.
Antes vs depois
| Dimensão | Antes da virada cultural | Depois da governança ativa |
|---|---|---|
| Indicador principal | Taxa de acidentes discutida após o fechamento do mês | Taxa acompanhada com barreiras, exposição e decisões críticas |
| Papel do comitê | Receber apresentação de SST e cobrar melhora genérica | Remover obstáculos, priorizar risco e definir dono de ação |
| Liderança de campo | Visita protocolar, foco em conformidade visual e discurso | Verificação de tarefa crítica, pergunta técnica e apoio à parada |
| Resposta a alerta | Quase-acidente tratado como ruído ou falha local | Quase-acidente usado como evidência de falha latente |
| Resultado emblemático | Variação dependente de unidade, liderança ou subnotificação | Redução de 86% na taxa de acidentes por horas trabalhadas |
O que aplicar na sua operação
Comece escolhendo uma família de riscos críticos, não o programa inteiro de SST. Para cada risco, defina 1 barreira principal, 1 dono executivo, 1 indicador de degradação e 1 gatilho de escalonamento. Essa simplicidade evita o vício de criar matriz enorme que ninguém usa. Depois, leve o tema ao comitê por 90 dias seguidos, sempre com a mesma pergunta: qual decisão tomamos antes que a exposição vire lesão?
Em seguida, revise a qualidade das visitas de liderança. Uma boa visita deve terminar com evidência de aprendizado ou decisão. Pode ser uma barreira corrigida, uma tarefa pausada, uma prioridade ajustada ou um obstáculo removido para o supervisor. Quando nada muda depois da visita, o campo aprende que a presença executiva é simbólica. O artigo sobre ritual de turno e cultura viva ajuda a transformar essa presença em rotina operacional.
Também vale auditar o modo como a empresa reage à notícia ruim. Escolha 10 alertas recentes e verifique prazo de resposta, nível de liderança envolvido, correção implantada e devolutiva para quem reportou. Se a maior parte dos alertas morreu sem fechamento, o problema não está na disposição das pessoas para falar. Está na governança que não devolve consequência útil.
Por último, trate a meta de redução como resultado de capacidade, não como pressão emocional. A experiência da PepsiCo LatAm mostra que 86% menos acidentes não nasce de pedir mais cuidado. Nasce de tornar risco visível, decidir cedo, proteger a voz do campo e cobrar a liderança pelo que ela controla. Essa distinção evita que a empresa transforme um bom caso em receita rasa.
Conclusão
O caso PepsiCo LatAm é forte porque combina escala, resultado e aprendizado gerencial. A redução de 86% na taxa de acidentes por horas trabalhadas não deve ser lida como troféu isolado, mas como evidência de que governança de SST funciona quando desloca a conversa da consequência para a decisão. O acidente aparece no fim; a cultura aparece antes, naquilo que a liderança aceita, pergunta, mede e corrige.
Para empresas que querem sair do painel bonito e entrar na gestão real do risco, o próximo passo é diagnosticar como a decisão acontece hoje. Quem recebe notícia ruim? Quem tem autoridade para remover obstáculo? Qual barreira crítica chega ao comitê antes de falhar? O diagnóstico de cultura de segurança da Andreza Araujo parte dessas perguntas para conectar liderança, indicadores e rotina de campo. Conheça os livros e programas em andrezaaraujo.com.
Perguntas frequentes
O que é governança de SST?
Como a PepsiCo LatAm reduziu 86% da taxa de acidentes?
Qual indicador executivo mostra cultura de segurança madura?
Governança de SST é responsabilidade do SESMT ou da diretoria?
Como começar um diagnóstico de governança de SST?
Sobre a autora
Andreza Araújo
Especialista em Cultura de Segurança · Executiva Sênior de EHS
Andreza Araújo é especialista em cultura de segurança e executiva sênior de EHS, com mais de 25 anos de experiência em meio ambiente, saúde e segurança. É engenheira civil e engenheira de segurança do trabalho pela Unicamp, mestra em Diplomacia Ambiental pela Universidade de Genebra e concluiu estudos em sustentabilidade no IMD, na Suíça. Atuou como Global Head de EHS em ambientes Fortune 500, liderando programas de transformação cultural em operações multinacionais. Representou o Brasil como palestrante na ONU, em Paris, e discursou na Organização Internacional do Trabalho, em Turim. É autora de mais de 16 livros sobre cultura de segurança em português, espanhol, inglês e alemão. Seu trabalho já recebeu mais de 10 prêmios de EHS, incluindo dois reconhecimentos de Indra Nooyi, ex-CEO da PepsiCo.
- Engenheira Civil e de Segurança (Unicamp)
- Mestra em Diplomacia Ambiental (Universidade de Genebra)
- Certificação em Sustentabilidade (IMD Suíça)
- Gestão de Pessoas e Coaching (Ohio University)
- Palestrante na ONU em Paris, representando o Brasil
- Palestrante na OIT em Turim
- LinkedIn Top Voice
- Reconhecimento de Indra Nooyi, ex-CEO da PepsiCo (2x)
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Três produções sobre cultura de segurança, falhas organizacionais e as lições humanas por trás de grandes desastres.
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Ela apresenta três programas sobre liderança em segurança, EHS e cultura organizacional, em inglês e português.