Liderança

Como uma multinacional reduziu acidentes em 86% em 24 meses

Caso F5 mostra como uma multinacional reduziu acidentes em 86% em 24 meses ao trocar heroísmo por rotina visível, liderança de campo e devolutiva.

Por 8 min de leitura
cena de liderança mostrando como uma multinacional reduziu acidentes em 86 em 24 meses — Como uma multinacional reduziu acide

Principais conclusões

  1. 01A redução de 86% em 24 meses veio de liderança de campo e rotina visível, não de campanha solta.
  2. 02O líder imediato passou a ser o dono da cultura porque começou a observar, perguntar e devolver decisões no turno.
  3. 03Treinamento sem rotina não sustentou a virada; o que mudou foi a disciplina de gestão no lugar onde o risco nasce.
  4. 04Indicadores importam quando são consequência de comportamento, não quando substituem a leitura do campo.
  5. 05Liderança Gold, A Ilusão da Conformidade e Muito Além do Zero ajudam a transformar discurso em prática observável.

Em 24 meses, uma multinacional de bens de consumo reduziu a taxa de acidentes em 86% quando a liderança parou de premiar resposta rápida e passou a cobrar rotina visível. O dado importa menos pelo número isolado do que pelo mecanismo: a virada começou no líder imediato, que deixou de operar como espectador de slide e voltou a ser dono da decisão no campo.

Em 25+ anos de EHS executivo e mais de 250 projetos de transformação cultural, Andreza Araujo viu esse padrão se repetir em diferentes países e setores. Na passagem pela PepsiCo LatAm, a redução de 86% não veio de uma campanha mais barulhenta. Veio de disciplina de gestão, de leitura de campo e de liderança que aceitou mudar o próprio comportamento antes de exigir mudança do time.

Cenário inicial

O cenário inicial parecia bom para quem olhava de longe e ruim para quem entrava no turno. Os painéis estavam organizados, as reuniões eram frequentes e as apresentações seguiam o roteiro. Ainda assim, o campo contava outra história. Havia dúvida calada, ajuste improvisado, conversa curta demais e um hábito perigoso de tratar desvio como ruído operacional, não como sinal de liderança fraca.

Como Andreza Araujo escreve em A Ilusão da Conformidade, cumprir o rito formal não prova controle real. A empresa já tinha ações, indicadores e campanhas, mas a liderança ainda buscava tranquilidade no número e não na barreira. O problema central não era falta de informação. Era um desenho de gestão em que o gerente aparecia depois do problema, não antes dele.

Essa diferença é a mesma que separa discurso de cultura. Em Liderança Gold, Andreza sustenta que inspiração é importante, porém insuficiente; o que sustenta a transformação é a transpiração do líder, ou seja, a rotina que o time enxerga repetidamente. O campo aprende mais com o que o gestor repete do que com o que ele declara na reunião mensal.

Decisão

A decisão foi simples de dizer e difícil de sustentar: a empresa não tentaria vencer o problema com mais treinamento genérico. O foco seria liderança de campo. Cada líder teria de olhar risco, conversar com o time, pedir alerta cedo e devolver a decisão com prazo visível. A meta deixou de ser parecer comprometido e passou a ser produzir proteção real.

A escolha também exigiu abandonar a ideia de que segurança é uma ilha técnica. A liderança assumiu que o comportamento do gerente molda a cultura antes de qualquer campanha. Em Cultura de Segurança, Andreza Araujo defende que o líder imediato é o dono da cultura, porque é ele quem traduz prioridade em agenda, e agenda em decisão, e decisão em barreira.

O primeiro passo foi parar de tratar o EHS como o único guardião do tema. O segundo foi devolver aos supervisores a responsabilidade de olhar o trabalho real. O terceiro foi criar um circuito curto entre alerta, decisão e retorno. Essa combinação reduziu a distância entre quem vê o risco e quem pode agir sobre ele.

Execução

A execução começou pelo que a maioria das organizações evita quando quer resultado rápido: presença do líder no lugar onde o risco nasce. Em vez de depender só de relatório, os gestores passaram a entrar no campo com roteiro curto, observar o trabalho e fazer poucas perguntas, mas perguntas certas. O que mudou? Qual barreira enfraqueceu? O que precisa ser ajustado antes do próximo turno?

Essas perguntas mudaram a conversa porque deslocaram a liderança do modo acusação para o modo leitura. O supervisor deixou de ser alguém que cobra depois e passou a ser alguém que enxerga antes. Em paralelo, a empresa deixou de premiar a velocidade de resposta e passou a premiar a qualidade do retorno. Um alerta sem devolutiva começou a contar como falha de gestão.

Durante essa fase, Andreza Araujo viu que o campo responde melhor quando a regra é simples e repetível. Não se trata de um script burocrático. Trata-se de criar uma cadência em que o líder aparece, escuta, combina o próximo passo e volta para dizer o que mudou. O artigo Liderança de turno: 5 falhas que punem a dúvida no campo aprofunda exatamente esse tipo de resposta.

O passo seguinte foi proteger a agenda do líder. Se a visita de campo era cancelada toda semana, o sistema continuava ensinando que a operação podia esperar. A empresa então tratou agenda de campo como compromisso de segurança, não como sobra do dia. Esse ajuste parece pequeno, mas ele muda o recado cultural, porque mostra quem de fato manda no tempo da liderança.

Na mesma lógica, o time passou a registrar menos o número de atividades e mais a qualidade da resposta. Quando uma dúvida aparecia, o ponto central não era encontrar um culpado. Era resolver a barreira antes que ela se transformasse em quase-acidente ou evento crítico. O artigo Como preparar um supervisor recém-promovido para falar de risco em 8 passos mostra como essa conversa começa no líder recém-promovido.

Resultado mensurado

O resultado mais forte foi a queda de 86% na taxa de acidentes em 24 meses. Esse número vale porque não apareceu sozinho. Ele veio acompanhado de mais conversa útil no campo, menos tolerância ao atalho e mais consistência na cobrança de barreiras. Quando a liderança passou a agir antes, o sistema começou a responder antes também.

A leitura executiva do resultado não pode parar no percentual. Em Muito Além do Zero, Andreza Araujo critica a obsessão por indicador bonito quando ele esconde o processo que o produziu. Por isso, a empresa acompanhou também sinais de qualidade da liderança, como presença em campo, velocidade de retorno, fechamento de ação e disposição para escutar dúvida ruim em vez de celebrar silêncio confortável.

A tabela abaixo resume a virada. O que muda não é só a estatística final, mas a lógica de gestão que sustenta a estatística.

DimensãoAntesDepois
Leitura do riscoPainel verde com campo confusoCampo observado antes da decisão
Papel do líderReage depois do problemaEntra no turno antes da exposição
Resposta ao alertaPromessa vaga ou atrasoRetorno visível com prazo
Voz do timeDúvida evitada para não incomodarDúvida tratada como sinal útil
Taxa de acidentesBase anteriorRedução de 86% em 24 meses

Esse tipo de leitura conversa com TRIR em SST: 4 distorções que cegam o comitê executivo, porque um número sozinho não prova maturidade. A empresa aprendeu a usar indicador como consequência de comportamento, não como substituto de liderança. Isso mudou a conversa do comitê e tirou pressão artificial do time operacional.

Lições generalizáveis

A primeira lição é que liderança não é presença simbólica. O líder precisa ser visto onde o risco acontece, porque é ali que o campo decide se a empresa fala sério ou não. Quando o gerente some do local crítico, ele perde a chance de corrigir antes e sobra para a estatística corrigir depois.

A segunda lição é que treinamento sem rotina não sustenta mudança. A empresa pode capacitar muita gente e, ainda assim, manter o mesmo padrão se o líder continuar premiando pressa, improviso e silêncio. Em A Ilusão da Conformidade, Andreza mostra que o rito pode estar correto enquanto o controle real continua frágil.

A terceira lição é que o alerta precisa de devolutiva. Se a equipe fala e nunca recebe retorno, ela para de falar. O turno aprende rápido qual custo social vem junto com a sinceridade. Por isso, o artigo sobre supervisor recém-promovido vale como apoio prático: o líder precisa aprender a ouvir sem encerrar a conversa cedo demais.

A quarta lição é que a liderança define a utilidade do indicador. Quando o comitê olha apenas o retrovisor, o sistema produz tranquilidade falsa. Quando a liderança usa o painel para corrigir comportamento, o número vira consequência de uma cultura mais forte. Essa virada é consistente com o que Andreza Araujo descreve em Diagnóstico de Cultura de Segurança.

O que aplicar na sua operação

O caso da PepsiCo LatAm não serve para ser copiado literalmente. Serve para mostrar uma lógica aplicável a qualquer operação que queira sair da aparência de controle. Se a sua empresa quer uma virada parecida, comece pequeno, mas comece de verdade.

  1. Escolha um líder dono do problema. Não delegue a mudança inteira para o EHS. A cultura muda quando o gestor de linha entra na rotina.
  2. Defina um ritual curto de campo. Uma visita semanal, com poucas perguntas e devolutiva clara, vale mais do que uma agenda cheia de reuniões sem decisão.
  3. Troque volume por qualidade de retorno. Alertas precisam voltar com ação, prazo e responsável. Sem isso, a equipe aprende silêncio.
  4. Leia o indicador como consequência. TRIR, taxa de acidentes e quase-acidentes importam, mas eles seguem o comportamento da liderança, não o contrário.

Se a sua liderança ainda acha que basta pedir atenção, o problema continua vivo. Em vez de tentar convencer o time com mais uma campanha, use o próximo turno para testar o padrão de liderança. O que o gerente vê, pergunta e devolve pesa mais do que qualquer frase na parede.

O caso mostra uma regra simples: acidente cai quando a liderança deixa de tratar segurança como tema paralelo e passa a governar o trabalho real. Isso não acontece por sorte, nem por campanha isolada, nem por slide bonito. A empresa da história mudou porque o líder voltou a decidir no campo e o campo finalmente teve retorno visível.

Se a sua operação ainda depende de heroísmo, a próxima virada começa na agenda do líder, não no cartaz. Em Cultura de Segurança, Liderança Gold e Muito Além do Zero, Andreza Araujo mostra que o resultado sustentável nasce quando a liderança encara o que o campo já sabe e transforma isso em rotina que protege.

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Perguntas frequentes

Esse caso é sobre qual empresa?
O recorte parte da passagem da Andreza Araujo pela PepsiCo LatAm, mas o artigo usa o formato de caso para mostrar o mecanismo de liderança que sustentou a redução de 86% na taxa de acidentes.
O que mais mudou além do indicador final?
Mudaram a presença do líder no campo, a qualidade da devolutiva, o peso da agenda de campo e a forma de tratar dúvidas e alertas. O número final foi consequência dessa rotina.
Por que treinamento sozinho não resolve esse tipo de problema?
Porque treinamento não altera o que o líder recompensa no dia a dia. Se a liderança continua valorizando pressa, atalho e silêncio, a operação aprende exatamente isso.
Que livro da Andreza mais conversa com esse caso?
Liderança Gold ajuda a entender a força da rotina do líder, A Ilusão da Conformidade mostra o risco de confundir rito com controle, e Muito Além do Zero ajuda a ler indicador sem cair em aparência de sucesso.
Como aplicar a lição na minha operação?
Escolha um líder dono do problema, preserve uma visita de campo por semana, exija devolutiva com prazo e use o indicador como consequência de comportamento, não como substituto da gestão.

Sobre a autora

Andreza Araújo

Especialista em Cultura de Segurança · Executiva Sênior de EHS

Andreza Araújo é especialista em cultura de segurança e executiva sênior de EHS, com mais de 25 anos de experiência em meio ambiente, saúde e segurança. É engenheira civil e engenheira de segurança do trabalho pela Unicamp, mestra em Diplomacia Ambiental pela Universidade de Genebra e concluiu estudos em sustentabilidade no IMD, na Suíça. Atuou como Global Head de EHS em ambientes Fortune 500, liderando programas de transformação cultural em operações multinacionais. Representou o Brasil como palestrante na ONU, em Paris, e discursou na Organização Internacional do Trabalho, em Turim. É autora de mais de 16 livros sobre cultura de segurança em português, espanhol, inglês e alemão. Seu trabalho já recebeu mais de 10 prêmios de EHS, incluindo dois reconhecimentos de Indra Nooyi, ex-CEO da PepsiCo.

  • Engenheira Civil e de Segurança (Unicamp)
  • Mestra em Diplomacia Ambiental (Universidade de Genebra)
  • Certificação em Sustentabilidade (IMD Suíça)
  • Gestão de Pessoas e Coaching (Ohio University)
  • Palestrante na ONU em Paris, representando o Brasil
  • Palestrante na OIT em Turim
  • LinkedIn Top Voice
  • Reconhecimento de Indra Nooyi, ex-CEO da PepsiCo (2x)

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