Comportamento Seguro

Como uma indústria de alimentos reduziu em 34% os acidentes por escorregões em um ano

Um caso documentado pelo HSE mostra como uma indústria de alimentos reduziu em 34% os acidentes por escorregões e tropeços ao combinar participação da equipe, mudanças no ambiente e liderança.

Por 9 min de leitura
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Principais conclusões

  1. 01O caso documentado pelo HSE registrou redução de 34% nos incidentes de escorregões e tropeços no primeiro ano.
  2. 02A participação dos trabalhadores produziu correções concretas em produto, limpeza, rotas, pisos e equipamentos.
  3. 03Comportamento seguro se fortalece quando a liderança altera as condições que tornam o desvio provável.
  4. 04A redução não veio de um único treinamento ou equipamento, mas de uma combinação de barreiras e verificação.
  5. 05Supervisores devem medir a recorrência e a eficácia das barreiras, não apenas o encerramento de ações.

Uma indústria de alimentos reduziu os acidentes por escorregões e tropeços em 34% no primeiro ano quando deixou de tratar o problema como distração individual e passou a combinar liderança, participação da equipe, mudanças físicas e verificação de campo.

O caso, publicado pelo Health and Safety Executive (HSE), é valioso porque o resultado não veio de uma campanha isolada nem de uma cobrança genérica por atenção. A empresa começou pelos próprios registros, identificou que a maioria dos acidentes envolvia escorregões e tropeços e organizou uma resposta que alcançou gestão, produção, manutenção e trabalhadores.

A tese deste artigo é simples, embora exija disciplina para ser aplicada. Comportamento seguro não se sustenta quando o ambiente continua produzindo a condição perigosa, porque a equipe aprende rapidamente que a organização pede cuidado, mas tolera o obstáculo, o piso contaminado e a resposta lenta.

Cenário inicial: o acidente parecia um problema de atenção

A indústria produzia refeições pré-preparadas, cuja operação combinava água, alimentos, circulação de pessoas, paletes e limpeza frequente. Os registros de incidentes mostravam que escorregões e tropeços formavam a maior parte dos acidentes com empregados. O dado indicava uma exposição recorrente, mas não explicava sozinho onde o sistema estava falhando.

O HSE descreve que a administração percebeu uma cultura em que comportamentos inseguros e tolerância ao risco haviam se tornado práticas aceitas. Esse detalhe muda a leitura do caso. Se a análise parasse na frase “o trabalhador precisa prestar mais atenção”, a empresa manteria intactas as condições que favoreciam a repetição.

O primeiro diagnóstico também evitou uma armadilha comum em segurança comportamental. A equipe não foi chamada apenas para ouvir uma palestra; foi convidada a identificar problemas, propor soluções e observar a resposta da gestão. Quando a organização escuta o campo, precisa demonstrar que o relato altera alguma coisa, ou a participação perde credibilidade.

Decisão: transformar registros em prioridade de gestão

Um grupo de gestores seniores foi criado para elevar o desempenho de saúde e segurança. O grupo definiu a redução de escorregões e tropeços como primeiro alvo e estabeleceu a meta de reduzir esses eventos em um terço no prazo de um ano. A escolha teve duas consequências importantes.

Primeiro, o tema ganhou responsável e cadência. Segundo, deixou de ser uma coleção de pequenos incômodos distribuídos pelo chão de fábrica e passou a ser uma exposição que merecia decisão. A liderança não prometeu eliminar todo risco imediatamente; escolheu um problema observável, mensurável e ligado à rotina produtiva.

Esse movimento se aproxima do que Andreza Araujo defende em 14 Camadas de Observação Comportamental. Observar não é procurar culpados, mas entender o que a pessoa encontra quando precisa executar a tarefa, quais escolhas o ambiente favorece e que barreira a gestão está disposta a reforçar.

Execução: a equipe encontrou causas que a inspeção não via

Grupos de trabalhadores passaram a se reunir para localizar problemas, apontar oportunidades e sugerir soluções. As informações eram encaminhadas ao grupo de gestão, que organizava prioridades e providenciava correções. Em algumas situações, a própria equipe resolvia a condição no momento, sem esperar uma autorização administrativa.

Representantes de segurança também receberam treinamento para participar das investigações. A medida é relevante porque aproxima o relato da causa real, cuja identificação costuma se perder quando a investigação começa e termina com a pergunta sobre quem estava andando ou trabalhando no local.

O mapeamento dos incidentes ajudou a localizar padrões. A empresa identificou, por exemplo, que molho chegava ao piso em determinados pontos. A alteração da especificação do produto eliminou aquela linha de molho, o que retirou uma fonte de contaminação. O controle não dependeu de pedir mais atenção; mudou a origem do problema.

Outra decisão foi retirar mangueiras fixas usadas para lavar as linhas. Como algumas permaneciam abertas, acumulavam água no piso e elevavam o consumo. A empresa passou a disponibilizar as mangueiras no almoxarifado, com devolução após o uso, e designou uma pessoa em cada linha para remover o alimento derramado assim que ele aparecesse.

Os tropeços receberam tratamento próprio. Os registros mostravam que paletes e outros objetos móveis eram deixados de maneira descontrolada nas áreas de produção. A criação de pontos demarcados para paletes tirou os materiais das rotas de circulação e tornou visível quando alguém os deixava fora do lugar.

Os pisos também foram avaliados. Superfícies desgastadas foram priorizadas para substituição, enquanto outras áreas receberam tapetes para impedir que a água trazida das salas de produção alcançasse pisos lisos. A sequência mostra por que uma conversa de segurança precisa ser acompanhada de engenharia, organização e manutenção.

Resultado mensurado: a meta foi superada sem depender de um único controle

Segundo o estudo de caso do HSE, a empresa registrou uma queda de 34% nos incidentes de escorregões e tropeços durante o primeiro ano. O resultado superou a meta inicial de um terço e veio acompanhado de uma mudança percebida na atitude das equipes, que passaram a enxergar que os relatos produziam ações.

A empresa continuou o trabalho e revisou também o calçado usado nas áreas de produção. Um fornecedor apresentou um modelo com maior resistência ao escorregamento, que foi testado por um grupo de trabalhadores antes da ampliação. Ainda antes da implantação completa do novo calçado, os índices de incidentes estavam mais de 60% abaixo do nível original.

O HSE informa que testes independentes realizados em seu Health and Safety Laboratory chegaram a conclusões semelhantes sobre o desempenho do calçado em condições molhadas. A fonte, entretanto, não atribui toda a redução ao equipamento. O caso descreve uma combinação de controles, participação, mudanças de ambiente e expectativa coletiva.

MomentoCondição observadaResposta de controle
Antes da intervençãoEscorregões, tropeços, água, alimento derramado e paletes fora das rotasRegistros existiam, mas o problema permanecia distribuído na rotina
Primeiro anoMeta de reduzir eventos em um terçoGrupos de trabalhadores, gestão de prioridades e correções no ambiente
Resultado inicialIncidentes 34% abaixo do nível anteriorParticipação conectada a mudanças visíveis e investigação com representantes
ContinuidadeÍndice mais de 60% abaixo do nível original antes do fim da troca de calçadosRevisão adicional de resistência ao escorregamento e manutenção da abordagem

O que o caso prova sobre comportamento seguro

O caso não prova que toda indústria reduzirá acidentes na mesma proporção. Ele mostra, com um resultado documentado, que comportamento seguro se fortalece quando a organização altera as condições que tornam o desvio provável e responde aos relatos com velocidade suficiente para ser percebida.

A primeira lição é que o trabalhador não deve carregar sozinho a responsabilidade por uma condição que o processo produz. A segunda é que a participação só funciona quando possui consequência prática. A terceira é que a gestão precisa combinar barreiras físicas, organização do trabalho, investigação e diálogo, porque nenhum desses elementos cobre sozinho toda a exposição.

James Reason ajuda a interpretar essa combinação. Em Managing the Risks of Organizational Accidents, o autor descreve como falhas ativas e condições latentes podem atravessar as camadas de proteção. No caso da indústria de alimentos, o piso molhado era a condição visível, mas a causa podia estar na especificação do produto, na mangueira, no projeto do fluxo ou na manutenção do piso.

Lições generalizáveis para supervisores e líderes de SST

O caso oferece cinco lições que podem ser levadas para outras operações, desde que sejam adaptadas ao risco real e não copiadas como receita pronta.

  1. Comece pelo padrão dos registros. Identifique qual evento se repete, em que local, turno, tarefa e condição. Um número sem localização não orienta decisão.
  2. Escolha uma prioridade observável. Uma equipe mobiliza melhor quando sabe qual exposição precisa reduzir e em qual prazo a liderança pretende avaliar o avanço.
  3. Convide quem executa a tarefa. A equipe conhece obstáculos, improvisos e pontos de acúmulo que uma inspeção rápida pode não alcançar.
  4. Corrija a fonte antes de reforçar a advertência. Se há água, alimento, palete, piso desgastado ou fluxo mal desenhado, a conversa precisa vir acompanhada da mudança que reduz a exposição.
  5. Verifique se a melhora permaneceu. A redução inicial deve ser acompanhada de recorrência, localização, severidade e evidência de que a barreira continua funcionando.

Essas lições também ajudam a separar diálogo de mera formalidade. Uma conversa de campo é útil quando muda a percepção, revela a causa e encaminha uma decisão. Quando serve apenas para registrar que alguém foi orientado, ela mede atividade administrativa, não controle de risco.

O que aplicar na sua operação nesta semana

O supervisor pode começar com uma reunião de trinta minutos no local onde os incidentes mais se concentram. Leve os registros, marque os pontos no mapa e peça que trabalhadores descrevam o que acontece antes do evento. A pergunta central não é “quem errou?”, mas “qual condição torna esse resultado previsível?”.

Depois, separe as ações em três grupos. O primeiro reúne mudanças imediatas, como retirar um obstáculo, demarcar uma rota ou interromper uma fonte de contaminação. O segundo reúne mudanças de manutenção ou engenharia, cuja execução depende de prazo, orçamento e responsável. O terceiro reúne ajustes de comportamento e rotina, que precisam ser observados no turno para confirmar se viraram hábito.

Registre para cada ação a condição encontrada, a barreira prevista, o dono da correção, a data de conclusão e a evidência de verificação. Uma ação só deve ser considerada encerrada quando a condição que gerava o evento foi modificada ou quando existe uma barreira provisória cuja eficácia foi confirmada em campo.

O líder de SST pode usar o caso da HSE para abrir a conversa com a direção, mas não deve vender o percentual de 34% como promessa. O valor está no método de decisão: escolher uma exposição, envolver quem trabalha, corrigir o ambiente, medir o resultado e continuar procurando a próxima camada frágil.

Conclusão: comportamento seguro aparece quando o sistema ajuda a fazer o certo

O estudo de caso da HSE mostra uma empresa que reduziu em 34% os incidentes de escorregões e tropeços no primeiro ano ao combinar liderança, participação da força de trabalho, investigação, mudanças de processo, organização do espaço e melhoria de equipamentos.

A principal conclusão é que comportamento seguro não nasce de uma cobrança isolada. Ele se torna mais provável quando a liderança remove as condições que favorecem o desvio, trata os relatos como informação de gestão e demonstra, no chão de fábrica, que a equipe tem poder para influenciar as barreiras.

Andreza Araujo resume essa direção em Faça a Diferença, Seja Líder em Saúde e Segurança. Liderar pela segurança exige presença, pergunta bem formulada e decisão que possa ser verificada depois. O resultado não é uma equipe que repete frases corretas, mas uma operação cuja rotina torna o cuidado mais fácil de executar.

Quando um acidente se repete no mesmo ambiente, a próxima conversa precisa alcançar a condição que produz o evento, não apenas a pessoa que estava mais perto dele.

Conheça o trabalho de Andreza Araujo para transformar comportamento, cultura e liderança em decisões de segurança que aparecem no campo.

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Perguntas frequentes

Qual foi o resultado do caso da indústria de alimentos?
O estudo de caso publicado pelo Health and Safety Executive registra uma redução de 34% nos incidentes de escorregões e tropeços no primeiro ano. O resultado veio de uma combinação de participação da equipe, mudanças no ambiente, investigação, organização das rotas e atuação da liderança.
Por que o caso não deve ser tratado apenas como treinamento?
Porque a empresa encontrou fontes físicas e organizacionais para os eventos, como água, alimento derramado, paletes fora das rotas, pisos desgastados e decisões de limpeza. Treinar pode apoiar a mudança, mas não substitui a correção da condição que produz a exposição.
Como envolver trabalhadores sem transformar a conversa em fiscalização?
Crie grupos que possam identificar problemas, sugerir soluções e acompanhar a resposta. A participação ganha credibilidade quando o relato resulta em uma correção visível, em uma decisão de manutenção ou em uma mudança de processo.
O que o supervisor deve medir depois da intervenção?
Além do número de incidentes, acompanhe localização, recorrência, condição da barreira, tempo de resposta e evidência de verificação. A queda do indicador é mais confiável quando a operação também demonstra que as causas foram tratadas.
O caso serve como modelo para qualquer empresa?
Ele serve como referência de raciocínio, não como promessa de percentual. Cada operação precisa identificar suas próprias fontes de exposição, adaptar os controles ao processo e confirmar o resultado com registros e observação de campo.

Sobre a autora

Andreza Araújo

Especialista em Cultura de Segurança · Executiva Sênior de EHS

Andreza Araújo é especialista em cultura de segurança e executiva sênior de EHS, com mais de 25 anos de experiência em meio ambiente, saúde e segurança. É engenheira civil e engenheira de segurança do trabalho pela Unicamp, mestra em Diplomacia Ambiental pela Universidade de Genebra e concluiu estudos em sustentabilidade no IMD, na Suíça. Atuou como Global Head de EHS em ambientes Fortune 500, liderando programas de transformação cultural em operações multinacionais. Representou o Brasil como palestrante na ONU, em Paris, e discursou na Organização Internacional do Trabalho, em Turim. É autora de mais de 16 livros sobre cultura de segurança em português, espanhol, inglês e alemão. Seu trabalho já recebeu mais de 10 prêmios de EHS, incluindo dois reconhecimentos de Indra Nooyi, ex-CEO da PepsiCo.

  • Engenheira Civil e de Segurança (Unicamp)
  • Mestra em Diplomacia Ambiental (Universidade de Genebra)
  • Certificação em Sustentabilidade (IMD Suíça)
  • Gestão de Pessoas e Coaching (Ohio University)
  • Palestrante na ONU em Paris, representando o Brasil
  • Palestrante na OIT em Turim
  • LinkedIn Top Voice
  • Reconhecimento de Indra Nooyi, ex-CEO da PepsiCo (2x)

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