Como o patrocínio executivo reduziu acidentes em 86% em 24 meses
No caso da PepsiCo LatAm, a queda de 86% veio quando a alta direção deixou de ser simbólica e passou a sustentar decisão visível, alçada clara e resposta do campo.

Principais conclusões
- 01A queda de 86% na PepsiCo LatAm veio quando o patrocínio executivo deixou de ser simbólico e passou a sustentar decisão visível.
- 02Patrocínio real muda alçada, não só comunicação.
- 03Recusa de trabalho inseguro precisa de proteção da liderança para virar norma de campo.
- 04Indicador só ganha valor quando leva a decisão, não quando apenas tranquiliza a diretoria.
- 05A leitura de Andreza Araujo conecta experiência executiva, James Reason e cultura de segurança sem transformar o case em teatro.
Na PepsiCo LatAm, a queda de 86% na taxa de acidentes por horas trabalhadas não começou com um slide mais bonito. Começou quando a alta direção parou de agir como auditora do número e passou a sustentar a decisão que o campo precisava ouvir.
Em 25+ anos de EHS executivo, Andreza Araujo viu esse padrão repetir em diferentes países e setores: quando o patrocinador executivo aparece só para chancelar campanha, a operação continua negociando risco no corredor; quando ele assume a responsabilidade de arbitrar, escalar e proteger a recusa do campo, a segurança deixa de ser decoração e vira critério.
Este case importa porque mostra a diferença entre presença simbólica e patrocínio real. O primeiro ocupa a agenda. O segundo muda a alçada, o tempo de resposta e a coragem do campo para dizer que uma tarefa não deve seguir como planejado.
Cenário inicial
A operação já tinha linguagem de segurança, campanhas recorrentes e um repertório corporativo capaz de preencher apresentações. O problema estava na distância entre o que a liderança dizia e o que o campo conseguia fazer quando o risco apertava. A estrutura parecia coerente no papel, mas a decisão real ainda dependia de exceção, adaptação e negociação no corredor.
Como Andreza Araujo defende em A Ilusão da Conformidade, cumprir rito não prova que a condição ficou segura. A organização pode treinar, comunicar e registrar, e ainda assim manter falhas latentes vivas porque a resposta ao risco continua lenta demais ou ambígua demais para o trabalho real.
Essa é a razão pela qual o case não pode ser lido como um truque de comunicação. Em 47 países e mais de 250 projetos de transformação cultural, Andreza Araujo observou que o problema central quase sempre está na cadeia de decisão. Se a alta direção não protege o critério, o campo aprende a proteger a meta ou o prazo, e a segurança fica em terceiro lugar sem ninguém admitir isso em voz alta.
O que mudou no patrocínio executivo
O ponto de virada foi simples de descrever e difícil de sustentar. O patrocinador executivo deixou de ser a pessoa que apenas recebia o consolidado e passou a ser quem dava cobertura para a decisão difícil. Isso incluiu aceitar que a recusa de uma tarefa insegura não é perda de performance, mas proteção da capacidade de decidir com critério.
Em termos práticos, a liderança parou de medir sucesso pelo volume de mensagem enviada e passou a medir pelo que o campo conseguia fazer com a mensagem. Esse ajuste conversa com o artigo sobre patrocinador executivo em SST em 60 dias, porque o papel não é ornamentar a segurança. É abrir caminho para que a decisão certa tenha espaço para acontecer na hora certa.
Também houve uma mudança na fronteira entre patrocínio e alçada. O que cabia ao campo ficou no campo. O que exigia recurso, regra ou arbitragem subiu para o nível certo. Quando essa fronteira fica explícita, a equipe para de pedir autorização para tudo e passa a acionar a liderança por motivo real, não por insegurança estrutural.
Esse ajuste se relaciona diretamente com alçada de decisão em SST. Sem alçada clara, o patrocinador vira figura decorativa. Com alçada clara, ele vira parte da barreira de segurança, porque sua função deixa de ser discursiva e passa a ser operacional.
O que não resolveu
Treinamento ajudou a uniformizar linguagem, mas não teria produzido a virada sozinho. Campanha ajudou a manter o assunto vivo, mas não mudaria a forma como a tarefa era autorizada. Indicador ajudou a mostrar tendência, mas não decidiu o que fazer quando a tendência batia na rotina do turno.
Esse é o tipo de caso em que James Reason ajuda a enxergar mais longe. As falhas visíveis chamam atenção, mas as falhas latentes continuam no sistema enquanto a liderança não altera a condição que as produz. Se o desenho de decisão continua frouxo, o operador acaba recebendo a culpa por uma estrutura que já vinha empurrando o risco para ele.
Andreza Araujo insiste nessa distinção em Muito Além do Zero e em Liderança Antifrágil. Meta bonita sem mecanismo vira consolo estatístico. Liderança útil é a que muda o ambiente de decisão para que o campo consiga fazer a coisa certa sem heroísmo e sem improviso.
Se a liderança ainda acredita que bastam reunião mensal e gráfico verde, o risco volta a se esconder. O caso da PepsiCo LatAm mostra o contrário. A mudança aconteceu quando a alta direção passou a aceitar que segurança não é uma pauta lateral. É parte da forma como a empresa decide, prioriza e interrompe o trabalho quando a barreira ainda não está madura.
Resultado mensurado
O resultado verificado foi a redução de 86% na taxa de acidentes por horas trabalhadas em 24 meses. Esse número importa, mas não pode ser lido isoladamente como se fosse milagre de campanha. Ele é a consequência de um conjunto de decisões coerentes, tomadas com visibilidade e sustentadas no tempo.
O que torna esse resultado relevante para uma liderança executiva é que ele não veio de um gesto único. Veio da repetição de um comportamento gerencial mais difícil de manter do que uma apresentação: proteger a recusa do campo, tratar a alçada com seriedade e usar o patrocinador como resposta, não como enfeite.
Quando a alta direção assume esse papel, o time percebe coerência. E coerência muda comportamento mais rápido do que slogan. A operação entende que a regra não vive só no documento. Ela vive na forma como a liderança reage quando a decisão custa tempo, desconforto ou mudança de plano.
Antes e depois
| Dimensão | Antes | Depois |
|---|---|---|
| Papel da alta direção | Recebia relatório e validava a narrativa | Sustentava decisão visível para o campo |
| Recusa de trabalho inseguro | Exceção silenciosa e difícil de defender | Decisão protegida pela liderança |
| Alçada | Ambígua, com muita ida e volta | Explícita, com fronteira definida |
| Leitura do risco | Ficava presa ao número consolidado | Conectava número, contexto e resposta |
| Taxa de acidentes por horas trabalhadas | Patamar anterior | Queda de 86% em 24 meses |
| Cultura observável | Conformidade de fachada | Responsabilidade compartilhada e visível |
A comparação mostra o que um painel sozinho não conta. O dado melhora depois que o comportamento da liderança muda, não antes. Isso evita a armadilha de atribuir resultado a esforço genérico, quando na prática houve alteração de regra social dentro da operação.
Lições que valem para qualquer operação
Lição 1. Patrocínio executivo não é agenda preenchida. É a capacidade de proteger uma decisão difícil quando a operação preferiria empurrá-la para depois.
Lição 2. O campo percebe coerência antes de perceber discurso. Se a liderança diz uma coisa e recompensa outra, o time ajusta a conduta para sobreviver ao sistema, não para fortalecer a barreira.
Lição 3. Indicador sem decisão vira decoração. O número só ganha valor quando abre uma conversa sobre alçada, recurso, recusa e resposta.
Lição 4. Segurança não escala só pela área de SST. Quando o patrocinador executivo não assume o tema, o processo fica refém da boa vontade do especialista e perde força política.
Lição 5. Em operações grandes, o risco material quase sempre nasce de uma falha de coordenação entre liderança, turno e prioridade. A correção precisa tocar essa triangulação, não apenas o treinamento final.
O que aplicar na sua operação
Se a sua empresa quer copiar a lógica sem copiar o caso, comece pelo papel do patrocinador executivo. Escreva em uma página o que ele precisa decidir, o que ele precisa reforçar e o que ele não deve terceirizar para um slide mensal.
- Defina um risco crítico e faça o patrocinador responder por ele, não pelo relatório inteiro.
- Escolha uma situação de recusa legítima e proteja publicamente a decisão do campo.
- Alinhe a alçada de decisão para que o turno saiba quando agir, quando escalar e quando parar.
- Troque a pergunta "o indicador subiu?" por "o que a liderança fez quando o indicador mudou?".
- Revise se a SST está sendo usada para informar a liderança ou apenas para tranquilizar a liderança.
Esse roteiro faz sentido porque não depende de heroísmo. Ele depende de consistência. Quando o patrocinador age só em crise, o campo aprende a esperar a crise. Quando ele age antes, a operação aprende a resolver no nível certo.
O artigo sobre dever fiduciário em SST ajuda a completar essa leitura, porque lembra que decisão sobre risco não é assunto delegável para sempre. A liderança responde pelo que decide e pelo que deixa de decidir.
Quando o patrocínio vira teatro
O teatro aparece quando a alta direção participa da foto, mas não da fronteira. Também aparece quando a empresa chama de patrocínio aquilo que é apenas tolerância à apresentação. Se o patrocinador nunca questiona o que o campo vive, ele está patrocinando o rito, não a proteção.
Outro sinal claro é a distância entre o discurso e a resposta. A liderança fala em prioridade, mas na hora da recusa pede "só mais um esforço". Fala em segurança, mas cobre o resultado do mesmo modo que cobraria uma meta comercial, ignorando o custo de decisão que ficou escondido no turno.
Como Andreza Araujo escreveu em A Ilusão da Conformidade, o sistema pode parecer estável enquanto apenas administra aparência. O caso da PepsiCo LatAm mostra o oposto: quando a autoridade certa assume a responsabilidade certa, a estabilidade deixa de ser cosmética e passa a ser operacional.
Conclusão
O patrocínio executivo reduziu acidentes em 86% em 24 meses porque saiu do símbolo e entrou na decisão. A lição central não é que a liderança deve falar mais sobre segurança. É que ela precisa sustentar, na prática, a recusa do risco que ainda não pode ser administrado com confiança.
Em mais de 250 projetos de transformação cultural, Andreza Araujo viu o mesmo princípio repetir em setores e países diferentes: a empresa muda quando a liderança para de proteger apenas o número e passa a proteger a condição que produz o número. É isso que Liderança Antifrágil, A Ilusão da Conformidade e Muito Além do Zero ajudam a nomear com precisão.
Se quiser aprofundar esse tipo de leitura, comece pelos livros da Andreza Araujo na loja oficial e volte ao tema com a pergunta certa. A pergunta não é se a segurança está no relatório. É se a liderança está decidindo do jeito que o campo precisa para o risco cair de verdade.
Perguntas frequentes
O que diferencia patrocínio executivo de apoio simbólico?
Por que treinamento não explica sozinho a queda de 86%?
O que o conselho ou a diretoria devem aprender com esse case?
Como saber se o patrocínio virou teatro?
Que livros ajudam a aprofundar essa leitura?
Sobre a autora
Andreza Araújo
Especialista em Cultura de Segurança · Executiva Sênior de EHS
Andreza Araújo é especialista em cultura de segurança e executiva sênior de EHS, com mais de 25 anos de experiência em meio ambiente, saúde e segurança. É engenheira civil e engenheira de segurança do trabalho pela Unicamp, mestra em Diplomacia Ambiental pela Universidade de Genebra e concluiu estudos em sustentabilidade no IMD, na Suíça. Atuou como Global Head de EHS em ambientes Fortune 500, liderando programas de transformação cultural em operações multinacionais. Representou o Brasil como palestrante na ONU, em Paris, e discursou na Organização Internacional do Trabalho, em Turim. É autora de mais de 16 livros sobre cultura de segurança em português, espanhol, inglês e alemão. Seu trabalho já recebeu mais de 10 prêmios de EHS, incluindo dois reconhecimentos de Indra Nooyi, ex-CEO da PepsiCo.
- Engenheira Civil e de Segurança (Unicamp)
- Mestra em Diplomacia Ambiental (Universidade de Genebra)
- Certificação em Sustentabilidade (IMD Suíça)
- Gestão de Pessoas e Coaching (Ohio University)
- Palestrante na ONU em Paris, representando o Brasil
- Palestrante na OIT em Turim
- LinkedIn Top Voice
- Reconhecimento de Indra Nooyi, ex-CEO da PepsiCo (2x)
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