Como a investigação do Voo 254 da Varig encontrou um erro de leitura que já era padrão
O caso do Voo 254 da Varig mostra como uma leitura aparentemente individual pode revelar um padrão previsível, uma barreira frágil e uma investigação encerrada cedo demais.

Principais conclusões
- 01Reconstrua a decisão do Voo 254 separando o código 0270, as interpretações 027° e 270° e o desvio de 1000 km.
- 02Compare erros semelhantes anteriores para identificar um padrão previsível, em vez de encerrar a análise no último ato.
- 03Teste 4 barreiras da tarefa e registre quais controles estavam ausentes, frágeis ou presentes apenas no procedimento.
- 04Transforme a causa investigada em mudança verificável, com responsável, prazo e evidência de que o controle funciona.
- 05Aprofunde a abordagem de investigação e prevenção com os livros técnicos e os recursos da Andreza Araújo.
O Voo 254 da Varig é lembrado por uma leitura de navegação que desviou a aeronave 1000 km do rumo esperado. O caso, porém, não se esgota na pergunta sobre quem leu 0270 como 270°. A investigação madura precisa descobrir por que uma sequência de decisões permitiu que uma interpretação equivocada atravessasse as barreiras disponíveis.
Esse recorte é útil para a Segurança do Trabalho porque acidentes graves raramente são explicados por uma frase isolada. James Reason ajuda a deslocar a análise do indivíduo para o sistema, enquanto Andreza Araujo sustenta, em Sorte ou Capacidade, que o acidente não deve ser tratado como simples azar. O objetivo deste estudo de caso é mostrar como investigar um erro humano sem apagar a responsabilidade nem fabricar uma causa única.
Cenário inicial
O cenário inicial do Voo 254 da Varig envolve uma decisão de navegação que parecia pontual, mas produziu uma consequência espacial mensurável. O comandante interpretou a indicação 0270 como 270°, quando a leitura correta deveria ser 027°. A aeronave acabou 1000 km fora da rota prevista, distância que transforma uma dúvida de interpretação em uma ruptura operacional de grande escala.
O detalhe numérico importa porque impede uma narrativa vaga. Há pelo menos 3 elementos verificáveis no caso: a sequência 0270, as duas interpretações possíveis, 027° e 270°, e o desvio de 1000 km. Uma investigação que registra apenas “erro do comandante” perde justamente os elementos que permitem compreender como a decisão se formou.
Para a gestão de acidentes, o primeiro registro deve separar fato, hipótese e julgamento. A separação entre causa imediata e causa básica ajuda a evitar que a descrição do último ato seja apresentada como explicação completa.
O erro que parecia individual
O erro que parecia individual era a leitura de 0270 como 270°, mas essa formulação já contém uma conclusão prematura. O fato observável é a interpretação adotada; a atribuição de culpa surge depois, quando a equipe decide ignorar o desenho da informação, a possibilidade de confirmação e a existência de sinais contraditórios.
Erros de leitura parecem pessoais porque aparecem no último elo da cadeia. O operador, piloto ou trabalhador é quem realiza a ação visível, enquanto decisões anteriores ficam distribuídas entre procedimento, treinamento, equipamento, supervisão e pressão de tempo. Essa assimetria faz a investigação olhar para a mão que executou e não para as condições que tornaram a execução plausível.
O modelo do queijo suíço, desenvolvido por James Reason, oferece uma linguagem precisa para essa análise. Uma falha ativa pode abrir uma passagem, mas o acidente ganha força quando outras camadas também deixam de bloquear o caminho. A investigação precisa perguntar quais eram as 4 barreiras disponíveis, qual delas deveria ter detectado a ambiguidade e por que nenhuma interrompeu a sequência.
Essa abordagem não elimina a responsabilidade profissional. Ela melhora a qualidade da responsabilização, porque distingue uma decisão inadequada de uma organização que cria repetidamente as mesmas condições. Andreza Araujo associa essa leitura à necessidade de transformar a experiência do acidente em capacidade preventiva, não em punição simbólica.
O padrão já existia antes do voo
O caso do Voo 254 da Varig ganha outra dimensão porque erros humanos semelhantes já haviam ocorrido antes. Quando um mesmo tipo de interpretação aparece mais de uma vez, a hipótese mais forte deixa de ser “uma pessoa falhou” e passa a ser “o sistema não reconheceu um padrão conhecido”.
Essa mudança de pergunta é o centro do estudo de caso. Se a organização já tinha sinais de que leituras parecidas poderiam acontecer, havia uma oportunidade de criar uma confirmação independente, alterar a forma de exibir a informação ou exigir uma checagem cruzada antes da decisão. O número de ocorrências anteriores não precisa ser inventado para que a lição seja válida; basta reconhecer que a repetição descrita no acervo é evidência de previsibilidade.
A análise de barreiras na investigação ajuda a organizar essa pergunta em camadas. Em vez de procurar a frase perfeita que encerra a apuração, a equipe reconstrói quais controles existiam, quais estavam ausentes e quais funcionavam apenas no papel.
Uma organização que não registra sinais precursores transforma cada incidente em surpresa. Já uma organização que compara 2 ou 3 eventos semelhantes consegue identificar uma assinatura do risco, ainda que nenhum deles tenha terminado da mesma forma. O aprendizado começa quando a repetição deixa de ser coincidência narrativa e passa a ser dado para decisão.
Decisão da investigação
A decisão investigativa mais importante é não encerrar a causa em “erro de leitura”. A expressão descreve o mecanismo final, mas não explica a vulnerabilidade que permitiu a interpretação, a ausência de confirmação e a continuidade da rota equivocada.
Uma investigação robusta pode dividir a análise em 5 perguntas. A primeira verifica o que estava escrito e o que era esperado que o profissional entendesse. A segunda examina como a informação era apresentada. A terceira busca quais conferências eram obrigatórias. A quarta verifica se o treinamento reproduzia a ambiguidade. A quinta pergunta quais mudanças impediriam a repetição, sem depender apenas de atenção individual.
O método também precisa preservar uma linha do tempo com 6 pontos mínimos: informação recebida, interpretação adotada, primeira decisão, sinal de desvio, oportunidade de correção e consequência observada. Essa sequência permite separar o instante em que a pessoa percebeu o problema do instante em que a organização perdeu a chance de agir.
O teste de hipótese causal antes do fechamento da RCA é especialmente útil nesse momento, porque impede que uma explicação intuitiva seja promovida a causa-raiz sem evidência suficiente.
Execução: transformar o achado em barreira
Transformar o achado em barreira significa modificar a tarefa, a informação ou a decisão que falhou, em vez de apenas recomendar mais atenção. Uma ação corretiva que pede “redobrar o cuidado” não altera a condição que produziu a leitura e, por isso, oferece proteção frágil.
A execução pode seguir 4 frentes. A primeira é tornar a informação inequívoca, substituindo códigos ambíguos por uma convenção que reduza interpretações concorrentes. A segunda é inserir uma confirmação independente antes de uma mudança crítica de rumo. A terceira é treinar a equipe com exemplos de confusão real, não com perguntas que só admitem a resposta correta. A quarta é auditar se a nova barreira aparece na rotina, no procedimento e no comportamento.
Essa lógica conversa com a orientação da ISO 45001, que relaciona gestão de riscos, participação e melhoria contínua. Também se aproxima da posição da Organização Internacional do Trabalho, que trata a prevenção como responsabilidade organizada, e não como atributo individual isolado.
Na prática, cada ação deve ter 3 campos de verificação: responsável, prazo e evidência de mudança. Sem essa tríade, a empresa pode declarar que corrigiu o problema quando apenas arquivou uma recomendação.
Resultado mensurado
O resultado mensurado disponível neste caso é o desvio de 1000 km, que demonstra a dimensão operacional de uma interpretação não interrompida. O dado não prova, sozinho, qual controle teria evitado o evento, mas estabelece que o erro não foi pequeno nem meramente simbólico.
O segundo resultado observável é a identificação de um padrão de erros semelhantes anteriores. Esse achado muda a qualidade da prevenção porque converte um evento singular em uma pergunta sobre repetição. A investigação deixa de produzir apenas uma explicação retrospectiva e passa a indicar onde a organização precisa medir sua exposição.
A tabela, cuja leitura separa o que foi observado do que precisa ser melhorado, torna a decisão investigativa verificável:
| Antes da análise | Depois da análise |
|---|---|
| Erro de leitura atribuído ao comandante | Ambiguidade de informação investigada como condição do sistema |
| Evento tratado como episódio único | Erros semelhantes comparados como padrão |
| Recomendação genérica de atenção | Barreira definida com responsável, prazo e evidência |
| Conclusão centrada no último ato | Decisão reconstruída em 6 pontos da linha do tempo |
A mesma disciplina é necessária na SST, onde um quase-acidente, uma falha de bloqueio ou uma liberação indevida só geram prevenção quando a organização mede a qualidade da resposta, a repetição do padrão e a efetividade do controle, não apenas a quantidade de relatórios emitidos.
Lições generalizáveis
O Voo 254 da Varig oferece 5 lições generalizáveis para equipes que investigam acidentes de trabalho. A primeira é que a última ação visível raramente encerra a explicação. A segunda é que repetição anterior transforma erro em sinal previsível. A terceira é que uma barreira precisa bloquear uma decisão real, não apenas existir em um manual.
A quarta lição é que a responsabilização deve ser proporcional à informação e aos recursos disponíveis no momento da decisão. A quinta é que o resultado da investigação precisa sobreviver à reunião de encerramento, entrando em treinamento, procedimento, projeto e supervisão.
James Reason ajuda a sustentar esse movimento porque sua contribuição não reduz acidente a uma causa isolada. Em A Ilusão da Conformidade, Andreza Araujo também alerta que cumprir uma exigência formal não garante que o controle funcione diante da condição concreta. Essa conexão é decisiva para quem precisa sair de uma RCA documental e chegar a uma mudança observável.
A orientação de Segurança e Saúde no Trabalho do Ministério do Trabalho e Emprego reforça que a prevenção precisa ser organizada em processos e responsabilidades. O caso mostra por que essa organização deve incluir a leitura dos sinais que antecedem a perda de controle.
O que aplicar na sua operação
Na sua operação, aplique a lição do Voo 254 começando pela próxima investigação que contenha um erro aparentemente óbvio. Antes de apontar o indivíduo, reconstrua a informação que ele recebeu, as alternativas que estavam disponíveis e as confirmações que poderiam ter interrompido a decisão.
O roteiro de aplicação pode ser concluído em 7 movimentos. Registre o fato sem julgamento. Separe fato de hipótese. Compare o evento com ocorrências anteriores. Desenhe as 4 barreiras que deveriam proteger a tarefa. Escolha uma mudança que não dependa somente de atenção. Nomeie responsável e prazo. Verifique no campo se o controle passou a existir de verdade.
Essa sequência cabe em uma reunião de 60 minutos quando a equipe chega com os dados organizados, mas não deve ser confundida com uma investigação apressada. O objetivo é reduzir a distância entre o que a organização declara ter aprendido e o que realmente muda no trabalho.
Para Andreza Araujo, segurança se sustenta quando engenharia, criatividade e cuidado encontram a decisão concreta. O caso do Voo 254 da Varig traduz essa ideia em uma regra prática: quando um erro parece isolado, procure primeiro o padrão que a organização ainda não aprendeu a enxergar.
Perguntas frequentes
Qual foi o erro de leitura no Voo 254 da Varig?
Por que não basta atribuir o acidente ao comandante?
Como investigar um erro humano sem retirar a responsabilidade?
O que o Voo 254 ensina para a Segurança do Trabalho?
Qual é o primeiro passo para aplicar essa lição na empresa?
Sobre a autora
Andreza Araújo
Especialista em Cultura de Segurança · Executiva Sênior de EHS
Andreza Araújo é especialista em cultura de segurança e executiva sênior de EHS, com mais de 25 anos de experiência em meio ambiente, saúde e segurança. É engenheira civil e engenheira de segurança do trabalho pela Unicamp, mestra em Diplomacia Ambiental pela Universidade de Genebra e concluiu estudos em sustentabilidade no IMD, na Suíça. Atuou como Global Head de EHS em ambientes Fortune 500, liderando programas de transformação cultural em operações multinacionais. Representou o Brasil como palestrante na ONU, em Paris, e discursou na Organização Internacional do Trabalho, em Turim. É autora de mais de 16 livros sobre cultura de segurança em português, espanhol, inglês e alemão. Seu trabalho já recebeu mais de 10 prêmios de EHS, incluindo dois reconhecimentos de Indra Nooyi, ex-CEO da PepsiCo.
- Engenheira Civil e de Segurança (Unicamp)
- Mestra em Diplomacia Ambiental (Universidade de Genebra)
- Certificação em Sustentabilidade (IMD Suíça)
- Gestão de Pessoas e Coaching (Ohio University)
- Palestrante na ONU em Paris, representando o Brasil
- Palestrante na OIT em Turim
- LinkedIn Top Voice
- Reconhecimento de Indra Nooyi, ex-CEO da PepsiCo (2x)
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