Transcrição completa · Documentário · 2025
Um Dia Para Não Esquecer
Transcrição integral do documentário dirigido por Andreza Araújo sobre a tragédia da mina Consol nº 9 em Farmington, West Virginia (20 de novembro de 1968), onde 78 mineiros morreram em uma explosão e cujo legado deu origem ao Dia Mundial da Segurança e Saúde no Trabalho (28 de abril).
Nota sobre o idioma: esta transcrição preserva o caráter bilingue do filme. A narração e a análise técnica de Andreza Araújo aparecem em português, e os depoimentos dos familiares e moradores de Farmington em inglês, como na obra original.
Memorial de Farmington, 56 anos depois
Familiares e moradores se reúnem no memorial da mina Farmington nº 9 para lembrar os 78 mineiros mortos na explosão. O senador Joe Manchin, nativo de Farmington que também perdeu familiares na tragédia, participa da cerimônia, junto com uma documentarista brasileira que veio da Flórida para acompanhar o evento.
20 de novembro de 1968, 5h30 da manhã
Um incêndio começa dentro da mina Consol nº 9 em Farmington, West Virginia. Às 5h30 acontece um primeiro apagão, seguido de uma explosão nas profundezas. O turno havia começado à meia-noite. Inspeções de liberação haviam sido feitas. Farmington tinha cerca de 500 habitantes na época.
A região da Apalachia e a mineração de carvão
A Apalachia tem vastas reservas de carvão historicamente importantes para a matriz energética dos EUA e do mundo. A mineração de carvão na região remonta a séculos e foi fundamental no desenvolvimento econômico e na formação das comunidades locais. Em 1968, depois da Segunda Guerra, a mineração de carvão estava no seu auge.
A mina Consol nº 9: histórico e estrutura
Fundada em 1902, a mina tinha 66 anos no momento do acidente. Empregava 320 funcionários em várias centenas de milhares de metros quadrados. Operava na modalidade subterrânea e entregava 2 milhões de toneladas de carvão por ano. Possuía seis alas principais no leito de carvão de Pittsburgh, a mais de 90 metros abaixo da superfície. Já havia passado por três acidentes severos: 1954, 1958 e 1965.
Emílio Megna e o último dia de trabalho
Pai de Joey Megna, chefe de sessão e imigrante italiano de 48 anos. Veio para a América com a família aos 3 anos. Começou na mineração aos 14 anos. Estava feliz porque aquele seria o seu último dia no subsolo, já que no próximo sábado a família inauguraria um posto de gasolina e o trabalho seria ao ar livre. Joey tentou persuadi-lo a não descer, mas Emílio insistiu em terminar como começou.
A noite do acidente e as condições atmosféricas
Naquela quarta-feira de 20 de novembro de 1968, Emílio e outros 98 homens foram para o subsolo no turno noturno. Temperatura abaixo de zero, umidade e pressão barométrica baixas. Em ambientes minerados, condições assim mudam a dinâmica dos gases: metano e monóxido de carbono ficam mais densos, dificultando a circulação. Sem sistemas de exaustão funcionando, o acúmulo de gases favorece grandes explosões em caso de ignição.
A primeira explosão e o aviso para as famílias
Um mecânico é chamado com urgência para corrigir um problema elétrico. Houve uma rápida interrupção de energia que logo voltou. No lado oeste da mina, ninguém atendia o rádio. As luzes começaram a cair e a mina começou a tremer. Por volta das 5h30, o primeiro tremor foi a primeira de uma série de explosões que aconteceriam naquele dia.
A explosão de metano e o eco a quilômetros de distância
A liberação de metano durante a extração de carvão é inerente ao processo, porque o metano está armazenado em fissuras e poros dentro da própria rocha. No momento da explosão, a mina liberava 8 milhões de pés cúbicos de metano a cada 24 horas, mais do que o dobro da primeira ocorrência em 1954. O som das explosões foi audível a grande distância.
A fotografia icônica e a comoção da cidade
As explosões lançaram uma nuvem de fumaça a mais de 45 metros de altura da boca da mina. Uma delas foi capturada em uma foto icônica do fotógrafo Lawrence Pierce, da Gazeta de Charleston. Em Farmington, todo mundo conhecia alguém que trabalhava lá: pai, irmão, tio, avô, sobrinho.
Paul, um dos mais jovens, e a corrida para a mina
Paul era um dos mineiros mais jovens. Havia se casado ainda no ensino médio com uma garota que morava perto da mina. Era a maior empregadora da região. Quando souberam do acidente, as famílias correram para a sede da mina por notícias. Reuniram-se na loja da empresa e ficaram do lado de fora no frio. A polícia estadual circulava. As equipes de resgate começaram a chegar.
James Matich, o filho de 14 anos, e o sonho premonitório
James Matich, filho de mineiro, teve um sonho premonitório por volta das 5h20: homens nas minas, alguém gritando "fire in the hole" e uma grande explosão. Sua mãe havia insistido na noite anterior para que o pai não fosse trabalhar. O pai recusou porque queria garantir educação para o filho. Mesmo após receber a notícia, James decidiu permanecer na escola para honrar o pai, que sempre colocava a educação em primeiro lugar.
O resgate impossível e os 21 sobreviventes
O acesso à mina foi dificultado pela instabilidade estrutural causada por incêndios e explosões, somada à presença de gases tóxicos. Apenas 21 mineiros conseguiram sair com vida, a maioria resgatados por um guindaste que desceu uma caçamba por um dos poços. As equipes precisaram puxar o cabo de volta e ir até Fairmont buscar mais cabo, enquanto novas explosões aconteciam.
24 horas depois, a tragédia vira notícia global
Em 24 horas, a tragédia já era manchete nacional e internacional. Em Farmington, nenhuma criança foi à escola, porque as 12 escolas do condado fecharam. O New York Times publicou matéria sobre o histórico de violações de segurança da mina. Tony Boyle, presidente da União de Trabalhadores Mineiros, prometeu lutar por melhores regulamentações. Famílias receberam atualizações por pastores, não pela empresa.
A vigília na igreja metodista no segundo dia
Mães e filhos se uniram em oração na igreja metodista unida. O incêndio dentro da mina estava fora de controle. A única forma de administrar o risco era retirar o oxigênio, então decidiram selar dois dutos com chapas de 16 toneladas. Cruz Vermelha servia bebidas quentes. Na loja da empresa, emitiam contracheques de emergência para as famílias.
A confirmação dos 78 desaparecidos
70 esposas e cerca de 250 a 350 crianças reuniram-se na pequena igreja para receber a notícia oficial: 78 homens estavam presos na mina. Os dutos de ventilação chegaram a lançar chamas com mais de 30 metros de altura. Ao entardecer do segundo dia, a empresa confirmou os 78 nomes.
O dilema moral dos resgatistas e o ar venenoso
Na madrugada do terceiro dia, uma nova explosão disparou para cima um tanque de 1000 galões, com detritos encontrados a 1 km de distância. Resgatistas enfrentavam o dilema: arriscar vidas ou interromper. Amostras de qualidade do ar mostraram dióxido de carbono e metano em níveis incompatíveis com a vida. Apenas a ala leste, onde não houve explosões, manteve ar respirável.
A condição precária da mina, com pó até o joelho
A mina estava no pior estado de conservação. Pó de carvão até o joelho. A falta de sistema de ventilação adequado se devia a: falta de manutenção, falta de regulamentação seguida, falta de conhecimento sobre os riscos, e falta de investimento por priorização inadequada.
A pressão por produtividade ignorou os avisos dos mineiros
Os mineiros avisavam que a mina podia explodir, que o pó estava na altura do joelho, que não havia rock dust suficiente. Mas a empresa estava obcecada por bater quotas. Famílias relatam que eles conseguiam identificar os riscos, mas tinham medo de falar.
A inevitabilidade do desastre e os sinais ignorados
O acidente de 1968 não foi a primeira tragédia desta empresa. Muitos sinais foram ignorados ao longo dos anos. Os mineiros sabiam que trabalhavam sob condições extremamente perigosas. Em frio extremo, sem ventilação funcionando, o aumento da temperatura interna, a dificuldade respiratória e a poeira espessa são sinais óbvios.
Quatro meses antes, o compressor pegou fogo
Inspetores haviam deixado passar não conformidades. Mineiros pediram ajuda a sindicatos, gerentes e autoridades estaduais. Em 1967, três inspeções apontaram o pó de carvão acumulado. Em 1968, antes do acidente, o mesmo cenário. 19 dias antes da explosão, nova inspeção repetia o alerta. A poeira era tão densa que os trabalhadores às vezes não se viam.
Por que os mineiros não conseguiram sair
Razões para a dificuldade de evacuação: a propagação rápida do incêndio, ausência de avisos antecipados, a fumaça densa e escura, os túneis labirínticos estreitos, e o pânico causado pela emergência. No início do sexto dia, amostras de ar mostraram que o ar não sustentava vida onde se acreditava estarem duas a três equipes de mineiros.
Sétimo dia: sugestões inviáveis e fiscalização anunciada
Mineiros de outras minas se recusaram a entrar para trabalhar, porque consideravam insegura. Sabiam exatamente quais dias os fiscais estaduais e federais visitavam as minas. A coletiva em Washington gerou comoção nos EUA e no Canadá. A lei era considerada terrivelmente fraca e protegia os direitos das empresas.
O que poderia ter evitado o acidente
Começando pelos processos de lições aprendidas, considerando que três acidentes anteriores não viraram aprendizado. Sistema de ventilação adequado, monitoramento de gases, administração dos perigos e riscos, liderança em segurança que valoriza escuta ativa, ambiente seguro para a fala, cultura de segurança forte entre todas as partes envolvidas.
Oitavo dia: Thanksgiving sem famílias inteiras
Véspera de Ação de Graças. Alarme tocou por 20 minutos. Novamente colocaram microfones nos poços; apenas som de água. O governador foi até Farmington. Cestas de Thanksgiving foram distribuídas; algumas famílias recusaram. Uma esposa disse: "Eu quero ouvir vozes. Eu quero que Deus dê algum sinal."
A cultura de medo como herança do acidente de 1954
Após o acidente de 1954, identificou-se que os mineiros tinham medo de falar. Ganhavam bônus por produtividade. Quem reclamava de segurança era designado para o trabalho mais distante, sujo e solitário. Medo de represálias e medo de perder o emprego. Os relatórios de troca de turno sempre indicavam condições positivas. 82% das 5400 minas ativas em 1967 tinham violações de segurança.
O décimo dia: selar a mina
O dia 10 chega. As famílias são convocadas à igreja. O presidente da companhia, John Corcoran, oficializa o que todos temiam: não há como alcançar os homens, não há chance de que estejam vivos, não há outro caminho senão selar a mina. A decisão foi consensada com órgãos estaduais e federais. 90 caminhões chegaram carregando 16 toneladas de rocha que foram depositadas com 1000 toneladas de calcário nos poços.
A dor que atravessa gerações
Crescer sem pai é uma das coisas mais difíceis. Muitas mães seguiram suas vidas, encontraram outros parceiros, tiveram mais filhos. Mas para outras, como a mãe de Joey, não havia ninguém mais. A dor se espalhou pelas minas de carvão. Era a morte da esperança.
A investigação: 84 testemunhas convocadas, 47 compareceram
O Capataz não assinou nem preencheu o relatório do turno antes de deixar a mina. As inspeções no sistema de emergência eram feitas aos domingos por dois funcionários ao longo de 4 horas, o que era impossível para uma mina de 22 km². Cabos de jumper haviam sido usados para bypassar o sistema de alarme FMCO: quando o alarme tocava por tempo suficiente, a energia se desligava e os mineiros precisavam sair. Familiares procuraram um dos eletricistas, mas ele se recusou a explicar.
Os sobreviventes recusam chamar o ocorrido de acidente
Familiares e sobreviventes: "Não foi um acidente. Foi sobre o todo-poderoso dólar e não sobre os homens." "Eles mataram esses 78 homens porque não quiseram ouvir." Gary Martin, um dos últimos a sair, respondeu quando perguntado sobre o que aconteceu: "Murder by 78."
Você revive o evento na cabeça repetidamente
A coisa é: você nunca teve o fechamento que esperaria quando alguém da família morre. Hoje existe um memorial no ponto da explosão. Ele não serve só como homenagem; está ali mostrando para todos que a vida é inegociável. Funções vão ser sempre substituídas, mas pessoas jamais.
A lei federal de saúde e segurança em Minas de Carvão (1969)
Se as famílias dos mortos encontraram alguma paz, foi em tornar a mineração mais segura para milhares. Um ano depois, o Congresso americano aprovou a histórica lei federal de saúde e segurança em Minas de Carvão. O acidente revela os desafios da cultura de segurança induzidos pela produção, pagamentos variáveis por volumes produzidos, falta de fiscalização e ambiente inseguro para a fala.
Como construir uma forte cultura de segurança
Empoderamento para a cultura de segurança que se manifesta em cada escolha, decisão, atitude, comportamento, hábito, e que começa com líderes. Líderes que são exemplos, influenciadores, que estão no caminho do acidente para impedi-lo. Parafraseando Peter Drucker: a cultura come a estratégia no café da manhã.
Os 5 níveis de maturidade da cultura de segurança
1. Patológico, com negação da cultura de segurança. 2. Reativo, reagindo aos acontecimentos. 3. Calculador, cumpridor de regras, procedimentos e checklists. 4. Proativo e Independente, assumindo a segurança como começando consigo mesmo. 5. Sustentável, com paixão genuína para melhoria contínua. Antes de apontar direção, é preciso entender em que nível você está hoje.
Como uma cultura forte se manifesta
Mais do que números, uma forte cultura de segurança se traduz em pessoas retornando para casa todos os dias, inteiras, completas, bem. Essa é a melhor tradução. Ela chega antes da execução da atividade. Torna o cidadão capaz de discutir a segurança em todas as suas atividades, porque o próximo trabalho não pode ser o último.
A missão da segurança atravessa gerações
"Se você me perguntasse onde está a segurança, eu te diria: a segurança está no abraço, em cada sonho que buscamos realizar através do trabalho. A missão da segurança atravessa gerações e se concretiza quando voltamos para casa."